segunda-feira, 28 de abril de 2008


"Liberdade pra mim é pouco, o que eu quero ainda não tem nome..."
Clarice Lispector

quinta-feira, 13 de março de 2008


Balada do Amor Através das Idades

Carlos Drummond de Andrade


Eu te gosto, você me gosta
desde tempos imemoriais.
Eu era grego, você troiana,
troiana mas não Helena.
Saí do cavalo de pau
para matar meu irmão.
Matei, brigamos, morremos.

Virei soldado romano,
perseguidor de cristãos.
Na porta da catatumba
encontrei-te novamente.
Mas quando vi você nua
caída na areia do circo
e o leão que vinha vindo,
dei um pulo desesperado
e o leão comeu nós dois.

Depois fui pirata mouro,
flagelo da Tripolitânia.
Toquei fogo na fragata
onde você se escondia
da fúria do meu bergantim.
Mas quando ia te pegar
e te fazer minha escrava,
você fez o sinal da cruz
e rasgou o peito a punhal...
Me suicidei também.

Depois (tempos mais amenos)
fui cortesão de Versailles,
espirituoso e devasso.
Você cismou de ser freira...
Pulei muro de convento
mas complicações políticas
nos levaram à guilhotina.

Hoje sou moço moderno,
remo, pulo, danço, boxo,
tenho dinheiro no banco.
Você é uma loura notável,
boxa, dança, pula, rema.
Seu pai é que não faz gosto.
Mas depois de mil peripécias,
eu, herói da Paramount,
te abraço, beijo e casamos.

domingo, 17 de fevereiro de 2008



Muitas vezes sinto uma percepção mais aguçada
que de um gato.

Entendo um olhar de frustração

Um gesto de raiva,Um comentário
invejoso...

Parece que vejo lá do alto como uma águia
E não
consigo desligar essa percepção

Meus olhos vêem borboletas e urubus,

Sinto cheiro dos perfumes caros e daqueles com suas
narinas invejosas atrás.
Entendo que comunicamos tudo que nossa mente
maquina.

Mas me surpreende como existem tantos cegos

que não percebem nem ao menos suas olheiras e
frustrações ao espelho.

Não se conhecem...
É questão de busca.. de ligar
"ON" para pessoas.

Pessoas falam muito mais que os sons de suas
vozes.







terça-feira, 5 de fevereiro de 2008


COMPENSAÇÃO - Cecília Meireles

Hoje que queria abrir um álbum de fotografias, onde não houvesse gente de olhos duros e mãos aduncas. Onde umas boas senhoras pousassem no papel com delicadeza, não para sobreviverem eternamente, mas para mandarem seu retrato às amigas com finas letras de “sincera afeição”. Um álbum onde aparecessem uns bons velhotes que não faziam negociatas, que não sabiam multiplicar dinheiro, que usavam roupas desajeitadas, sofriam de reumatismo, liam Virgílio e Horácio, e não tinham medo de fantasmas do porão. De lá de dentro de seus retratos essas senhoras estariam dizendo: “Meus filhos, nada disso vale a pena...” (E saberíamos que falavam de parentes sôfregos, ávidos de partilhas, uns querendo herdar as terras do morro – outros, a mata; outros, a várzea – todos vivendo já do testamento, antes mesmo da extrema-unção...) Hoje eu queria ficar folheando este álbum, onde não desejaria encontrar aqueles herdeiros.
Hoje eu queria ler uns livros que não falam de gente, mas só de bichos, de plantas, de pedras: um livro que me levasse por essas solidões da Natureza, sem vozes humanas, sem discursos, boatos, mentiras, calúnias, falsidades, elogios, celebrações... hoje eu queria apenas ver uma flor abrir-se, desmanchar-se, viver sua existência autêntica, integral, do nascimento à morte, muito breve, sem borboleta nem abelha de permeio. Uma existência total, no seu mistério. (E antes da flor? – Não sei.).
Esta ignorância humana. Este silêncio do universo. A sabedoria. Hoje eu queria estar entre as nuvens, na velocidade das nuvens, na sua fragilidade, na sua docilidade de ser e deixar de ser. Livremente. Sem interesse próprio. Confiante. À mercê da vida. Sem nenhum sonho de durarem um pouco mais, de ficarem no céu até o ano 2000, de terem emprego público, férias, abono de Natal, montepio, prêmio de loteria, discurso à beira do túmulo, nome em placa de rua, busto no jardim... (Ó nuvens prodigiosas, criaturas efêmeras que estais tão alto e não pretendeis nada, e sois capazes de obscurecer o sol e de fazer frutificar a terra, e não tendes vaidade nenhuma nem apego a esses ocasos!) Hoje eu quereria andar lá em cima nas nuvens, com as nuvens, pelas nuvens, para as nuvens...
Hoje eu quereria estar no deserto amarelo, sem beduíno, camelo ou rebanho de cabras: no puro deserto amarelo onde só reina o vento grandioso que leva tudo, que não precisa nem de água, nem de areia, nem de flor, nem de pedra, nem de gente. O vento solitário que vai para longe de mãos vazias.

Hoje eu queria ser esse vento.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Poética/ Manuel Bandeira


Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
PolíticoRaquíticoSifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar às mulheres, etc
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Meus livros

Alice no País das Maravilhas - Lewis Carroll
Auto-enagno - Eduardo Giannetti
Boca do inferno - Ana Miranda
Cândido ou o otimismo - Voltaire
Crime e castigo - Fiódor Dostoiésvsky
Crônica de uma morte anunciada - Gabriel García Marquez
Cartas a um jovem poeta - Rainer Maria Rilke
Édipo rei - Sófocles
Escolha o Seu Sonho - Cecília Meireles
Senhora - José de Alencar
Madame Bovary - Gustave Flaubert
Memórias de um sargento de milícias - Manuel Antônio de Almeida
Meu Michel - Amós Oz
Problemas da literatura infantil - Cecília Meireles
O crime do Padre Amaro - Eça de queiroz
O pássaro raro - Jostein Gaarder
O Veneno da madrugada - Gabriel Garcia Marquez

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Lembro do dia que li esse poema de Drummond e senti como se acabara de ter uma aula de um mestre...

Procura da Poesia (Carlos Drummond de Andrade)
Livro: A rosa do povo

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou dor no escuro
são indiferentes.
Não me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem de equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

VAMOS NOS PERMITIR


Quando penso nas restrições que nós mesmos criamos,
Nas regras e imposições que nos prejudicam,
Tenho ânsia de arrancar isso de dentro de mim,
Como se fosse uma simples pecinha de “Lego”.

E quero superar...
Mudar !
Quero ser mais livre para a vida
Menos angustiada com cobranças
Mais leve para sorrisos

Para que eu possa amar
Para que eu possa rir
Para que eu possa viver

sexta-feira, 20 de julho de 2007


“Esquecemos o valor de estar em paz com alguém, de aprofundar um relacionamento,
de ficar quietos lado a lado sem que isso seja um problema”.

Fonte: Deitando no divã para aprender a amar. Juliana Dacoregio
http://www.doqueelasgostam.com.br/artigos

Hoje quando li essa frase fiquei tão surpresa de como não valorizamos o que deveríamos.
Perdemos tanto tempo com ciúmes, estética, o que ele falou ou deixou de falar.
E esquecemos do mais importante, o sentir...a verdade do amor...

Uma boa semana a todos

sábado, 30 de junho de 2007

EU LI SIM



"Quando Nietzsche chorou" - Irvin Yalom

Eis algumas frases que gostei e destaquei.

“Somente quando consegue viver como águia, sem absolutamente
qualquer público, você consegue se voltar para outra pessoa com amor; somente então
é capaz de se preocupar com o engrandecimento do outro ser humano.”pág 372


“Perdoe-me se pareço impaciente, mas existe um fosso, um imenso fosso,
entre saber algo intelectualmente e sabe-lo emocionalmente.”pág 280


“(...) Dostoievski escreve que algumas coisas não devem ser contadas,
exceto aos amigos; outras coisas não devem ser contadas mesmo aos amigos;
finalmente existem coisas que não se contam nem a si mesmo!” pág 310

sexta-feira, 22 de junho de 2007



Quanto mais procuro compreender a vida,
Vejo o quanto não existem regras de compreensão.
Porque não sabemos quando e como vamos morrer
Não sabemos onde vamos encontrar nosso grande amor
Não entendemos o porquê das dificuldades
E nem conseguimos prever as surpresas que nos surpreendem.

Voltas e reviravoltas da vida,
Decepções que nunca esperávamos
Sonhos realizados quando não tínhamos mais esperança
Notícias de quem lhe fez bem ou mal...

Lições que a vida nos traz..
Mistérios que ela possui
Isso me fascina!

terça-feira, 5 de junho de 2007

Simples e poucas palavras... profundidade e beleza em poesia:

O mundo é grande

O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabena cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabeno breve espaço de beijar.
(Carlos Drummond de Andrade in “Amar se Aprende Amando”)

sábado, 2 de junho de 2007



Uma mensagem para o final de semana:

“Toda vez que o amor disser
Vem comigo
Vai sem medo
De se arrepender
Você deve acreditar
No que eu digo
Pode ir fundo
Isso é que é viver
Cola seu rosto no meu, vem dançar
Pinga seu nome no breu pra ficar
Enquanto se esquece de mim
Lembra da canção
Enquanto se esquece de mim
Lembra da canção
Ó lua bonita no céu molha o nosso amor”

Trecho Da Música CHUVA DE PRATA (Ed Wilson - Ronaldo Bastos)